domingo, 23 de setembro de 2018

SANTOMÉ, Jurjo Torres. Evitando o Debate sobre a Cultura no Sistema Educacional - Como ser competente sem conhecimento.

  • SANTOMÉ, Jurjo Torres. Evitando o Debate sobre a Cultura no Sistema Educacional - Como ser competente sem conhecimento. In SACRISTÁN, José Gimeno, et all. Educar por Competências: o que há de novo?. Porto Alegre: Artmed. 2011, p. 161-197.


Leitura iniciada dia 13 de setembro de 2018 na versão original em espanhol, pois não tive acesso à tradução do texto, sendo assim fiz um resumo da leitura já traduzido, tomando em conta os principais pontos.


O autor destaca que desde do final dos anos 80 se torna muito habitual ver nos documentos oficiais que regulam o sistema educativo a introdução de novos conceitos e filosofias, algumas que provocam enorme interesse, mas que não passam de mero slogan, desfigurando por completo o significado e funções que se espera que desempenhem. Expressões como autonomia pedagógica, currículo aberto e flexível, currículo e aprendizagem construtivista são bons exemplos de políticas ditadas pelo ministério, mas sem a verdadeira aplicação e participação de seus destinatários, de maneira especial os professores. Se pensa que basta introduzir nas legislações determinados conceitos, oferecidos como mais atuais e relevantes que o coletivo docente acatará estes conceitos e modifiquem todas suas práticas e rotinas, até conhecimentos adquiridos e construídos durante anos de sala de aula, pela influência destas novas filosofias.

Estudos e pesquisas mostram que estas reformas não funcionam sem a verdadeira participação dos professores, mas pelo contrário, elas apenas aparecem como terminologia nos documentos que os professores mais ou menos são obrigados a preencher.

O autor diz que é uma precipitação por parte do ministério impor estas filosofias, dentre outras coisas, estas reformas são levadas a cabo sem estudos e investigações que compreendam o que realmente funciona e o que não funciona no sistema educativo, nem mesmo o que merece e o que não merece ser preservado, faltam estudos diagnósticos sobre a vida nas escolas. O único diagnóstico que tem sido utilizado é provas do tipo teste como o PISA para oferecer para opinião pública como diagnóstico ao sistema educativo, centrados unicamente em analisar algumas condutas dos alunos, obtidos perante a aplicação de uma prova teste, aplicada em um único dia ao azar.

Não existe mais o mínimo debate , nem diagnóstico baseado no domínio que os alunos tem do conteúdo dos conteúdos obrigatórios e mesmo assim, é preciso estudos sobre a qualidade dos conteúdos.

Um exemplo na incongruência dos discurso entre os cursos ofertados nos últimos anos pelas autoridades do ministério nos cursos de atualização construtivistas voltados aos professores é falar do currículo aberto e flexível  ao mesmo tempo de um currículo que os professores ano a ano tem que dar conta e estes professores afirmam que não tem tempo suficiente , a saída é que estes professores optam por oferecer pílulas sobre cada tema obrigatório.

Sobre a modernização psicologizante das políticas públicas 

O discurso de competências, neste momento nos obriga que prestemos atenção no seu nascimento e como posteriormente ele val se transformando, mas na verdade o que se pretende ao recorrer a este conceito e camuflar as filosofias que o geraram.

Nos anos 70, é quando se produz a maior convergência entre o discurso psicologizante e o das distintas especialidades das ciências sociais, o que permite psicologizar os problemas e conflitos que surgem na sociedade e os discursos políticos dominantes naqueles anos, especialmente os do marxismo, que se dedicam a denunciar as condições de trabalho dos modelos capitalistas e as condições do colonialismo de muitos povos e a cultura patriarcal impregnada em todas as sociedades. Na década de 80 repercutem claramente revoluções e conflitos, seja a luta pela independência das colônias, pelos direitos das mulheres, raças e classes sociais oprimidas.

Recorrer a psicologização, permite deixar individualizar os problemas, invisibilizando as estruturas econômicas, políticas, militares, culturais e educativas que se construíram na opressão. 

Este discurso carece com matizes progressistas, pois coincide com as críticas de esquerda que dizia que então se fazia uma educação adoutrinaria, impondo conteúdos separados do contato com a realidade, que contribuíam em conformar um modelo de sociedade patriarcal, racistas, sexistas, classistas, imperialistas, militares, homofóbico,  religioso urbano... assim eram as verdades que os livros e a escola impunham. 

Houve muitas criticas a este modelo de educação, alguns disseram como Everett  (1973) a escola está morta ...as analises das instituições escolares daquele tempo as apresentavam como hierarquizadas, autoritárias, rigidas e autoritárias e demasiado alienantes, por conseguinte, contrários ao modelo de pessoa educada e desalienada que a modernidade precisava. 

Educar se comparava ao estrangulamento mental, em converter as pessoas em ladrilhos, mais tarde 1982 foi levado aos cinema 'the wall" do Pink Freud , como um tipo de denuncia ao conservadorismo pedagógico  e uma denuncia a um tipo de sociedade. A cadeia de montagem fordista onde trabalhadores e trabalhadoras perdem sua identidade semelhante o que Charles Chaplin havia denunciado no filme tempos modernos  traduziam com perfeição a denuncia de meninos e meninas que desejavam ser reconhecidos como pessoas livres e reflexivas, autônomas, seres que aspeiam viver num mundo mais humano, justo e democrático.

Leitura no dia 24/09


Neste clima de ataque aos modelos educativos tradicionais, a psicologia que tinha uma linguagem mais moderna e levantava temáticas que até então eram esquecidas pelos discursos educativos mais hegemônicos e conservadores se converteu em um campo de conhecimento muito apetitoso. A psicologia, especialmente a escola piagetiana, se converteu em taboa de salvação para educadores e educadoras progressistas, especialmente nos níveis de educação infantil e primária. Permitiu converter em centro do processo educativo a cada estudante, com suas peculiaridades e idiossincrasias (característica comportamental peculiar a um grupo ou a uma pessoa.) individuais, e portanto, desenhar e implementar um projeto mais relevante para todos e para cada um. O discurso psicológico com enfase no desenvolvimento pessoal, contribuiu para que o olhar e as principais preocupações dos professores se dirigissem a construir contextos educativos para facilitar seu desenvolvimento. a dimensão cultural da educação passa a uma segunda dimensão...

A psicologia se apresentava como o campo de conhecimento que podia contribuir a reconduzir  uma educação que não agradava ninguém.

Os professores progressistas apoiavam este modelo, porque abria uma via fazer um ensino relevante para os seus alunos, poderia, por exemplo, selecionar conteúdos que se adequavam muito mais com seus alunos, forçava a tomar em consideração o contexto de onde estavam seus alunos, a cultura do entorno, etc.

Estas perspectivas gozavam de grande aceitação, especialmente entre professores, desde do final dos anos 70 e turante toda a década de 80 entre o professorado da educação infantil e do primeiro siclo.

Eram momentos em que a regulação dos conteúdos da educação infantil eram inexistentes. As iniciativas que mais prestavam atenção nesta etapa eram promovidas por ajuntamentos de governo com forças políticas de esquerda, que confiavam nos professores que contratavam e lhes outorgava completa liberdade para desenhar seus projetos educativos. As professoras que se comprometiam a trabalhar nesta rede de Escolas Infantis, eram profissionais muito jovens e recém saídas das faculdades, na sua maioria após fazer uma especialização de psicologia ou pedagogia.

As rupturas com o modelo educativo começaram quando se iniciou a educação regulamentada, ou seja, quando o ministério já estabelecia diretrizes para se trabalhar e marcava objetivos e conteúdos para cada etapa do sistema educativo. Nas etapas obrigatórias, as culturas profissionais, as tradições que vinham definindo o que significa ser professor ou professora, junto com a função que haviam recebido do ministério, chocavam-se frontalmente com as pedagogias invisíveis de que fala Basil BERSTEIN e que caracterizam s estas psicologias piagetianas. 

Muito rápido os conservadores aprenderam a utilidade destas perspectivas psicologistas da educação para assimilar suas ideias que voltam a reaparecer em cena com linguagem e imagens mais populistas. Pouco a pouco o professorado vai mudando seu foco de atenção. O que se converteu mais interessante  e de atualidade era criar ambientes cognitivelmente mais interessante e potencializar as capacidades de cada estudante, a seleção dos conteúdos com que deveria se estimular e desenvolver as capacidades se tornou algo secundário. Desenvolveremos estruturas cognitivas e isto bastara para que o alunato se converta em uma pessoa mais educada.

Este panorama de desinteresse pela cultura contribuiu também a esquerda, mesmo que sem pretender, pois eram seus intelectuais que de um modo muito contundente vinhem de forma muito contundente criticando, com base nas pesquisas muito rigorosas o viés dos conteúdos culturais apresentados com que se trabalhava com os alunos nas aulas. As lutas e políticas progressistas havia permitido o acesso físico dos alunos de todas as classes sociais, sexo, raças e capacidades às instituições escolares, no entanto seus saberes e  cultura estavam ausentes e na maioria dos casos, a história e o presente, assim como as conquistas destas classes sociais populares eram manipuladas para apresentar-las como inferiores, carentes de favor, sem interesse nem utilidade, por conseguinte, este mesmo acesso às aulas e a cultura funcionava na prática como freio as reivindicações e aspirações dos membros deste coletivo, como estratégia reprodutivista deste status quo.

Um relativismo ligado a ideia que não era possível haver um conhecimento objetivo e rigoroso, ideias educacionais pós-modernas que permitiam julgar as pessoas pertencentes a outras culturas, argumentando que não existem mecanismos e condições para estabelecer condições de objetividade, assim caindo numa perigosa aceitação normativo e a aceitação que tudo vale.

O relativismo não deixava a possibilidade de uma seleção objetiva da cultura que podiam ser trabalhadas em aula. Se apresentava provas contundentes de como quem estava em situação de poder impunham alguns conteúdos escolares, selecionando unicamente aquelas parcelas de saber que lhes beneficiavam, de como os conteúdos mentiam na hora de oferecer interpretações de como foi e de como deverá ser o mundo, se criava da mesma forma, o currículo vigente para facilitar a fragmentação do conhecimento em compartimentos inconexos, que negava a possibilidade de compreender como funciona a sociedade como um todo, não permitiam ver as interconexões entre as distintas estruturas da sociedade.

Com este clima de fundo a psicologia, com um discurso voltado as capacidades,  oferecia uma via para continuar apostando na necessidade e utilidade das instituições escolares.

Um dos erros de muitos projetos educativos psicologistas foi uma notável ingenuidade de suas analises, caindo caindo sem pretender nos modelos naturalistas que pressupõe deixado em liberdade para escolher o que mais lhe convém, e que o desenvolvimento intelectual de cada pessoa está programado geneticamente, possui um ritmo próprio ao qual não podemos interferir, que só ao lhe oferecer um ambiente rico em estímulos cada estudante aprenderá a ler, matemática, física, música, filosofia ... Em grande medida, este erro é o que se esconde expressões como, "o ensino está centrado nos alunos e não nas matérias". 
Efetivamente, cada estudante, em função da estimulação e educação recebida até então, possui uns conhecimentos, destrezas e valores e outros não. Mas é função dos professores ter claro que novos conhecimentos são estes que a sociedade decidiu que se deve trabalhar com os alunos na etapa em que se encontram no sistema escolar, e consequentemente organizar o espaço, os recursos informativos e didáticos e as tarefas para que cada garoto e cada garota em sua aula possam acabar por dominá-los o quanto antes.
O ensino e a aprendizagem escolar precisa de um professorado que saiba acomodar-se na idiossincrasia de cada estudante, mas sabendo que é sua a tarefa de selecionar os recursos informativos, motivar e gerar um clima que contribua a orientar o aluno, não a inquietar-lo perante uma situação de indecisão do que é o que deve fazer e aprender. 

"Aprender a aprender" igual a outro tema muito semelhante, "aprender a pensar", requer dois requisitos indispensáveis para poder se fazer realidade: conteúdos culturais específicos (informação) sobre todos os que exercem estas atividades cognitivas e que estes conteúdos  sejam compartilhados com aquelas pessoas com que vamos se inter-relacionar. Compartilhar informação e conhecimento é o que servirá de estímulo para aprender a pensar, para tirar proveito aos conflitos cognitivos que se geram na comunicação e no trabalho conjunto com outras pessoas.

A geração de novos conhecimentos, o progresso científico, tecnológico, social, cultural se vê facilitado na medida em que estes conhecimentos que as instituições ofereçam aos alunos sejam atuais e relevantes para entender e participar nas sociedades do presente. A aprendizagem e a geração de novos saberes, assim como o favorecimento da criatividade das pessoas, a independência de seus preconceitos, é uma tarefa que requer uma base cultural muito sólida, de forma contrária é fácil que estas pessoas criativas se arisquem a voltar a inventar a roda, ao chegar a conclusões que poderiam chegar com maior rapidez e eficiência si lhes facilitassem o acesso a determinadas informações e experimentos.

Estamos perante estas palavras com significados diversos, e que inclusive dentro do mesmo âmbito de conhecimento, o laboral, é objeto de disputa e variações no que abarca. só como resumo, poderíamos distinguir os seguintes matizes ( Leve diferença entre coisas do mesmo gênero: matizes de opinião. [Figurado] Inclinação política, ideológica, filosófica; cor política: ensaio ou confissão de matiz literário. ) neste conceito:


  • Competência em ecologia, podendo distinguir-se, por sua vez, entre "Competência por interferência" e "Competência por exploração".
  • Competência no marco de algum esporte.
  • Competência jurídica: quem tem autoridade por lei para julgar ou resolver um assunto.
  • Competência administrativa, na solução de um tramite ou documento oficial.
  • Competência econômica, no sentido do direito a competência.
  • Competência como capacidade e eficácia na resolução de um assunto.
  • Competência como autoridade ou domínio que uma pessoa possui em um tema
  • Competência como comportamento de uma organização.
  • Competência linguística, na gramática gerativa, frente a performance Noan CHOMSKY diferencia entre competências e atuação (performance) na hora de distinguir entre a conduta linguística real e observável (atuação) em contraste com um sistema interno de conhecimento que subjace a (competência). As competências desde estas perspectiva se refletem as potencialidades inatas e, por conseguinte, não podem ser operacionadas . Pelo contrário, a atuação, a realização descreve o uso de competências em atos de fala concreta.
  • Competência cognitiva, na psicologia vinculada a etapa de desenvolvimento em que se encontra uma pessoa (Jean PIAGET).
  • Competência comunicativa, na sociolinguística, é referida a produção e interpretação de uma língua  em um contexto social determinado (Dell HYMES).
  • Competência cultural, em antropologia, associada aos tipos de significados disponíveis por pessoas e grupos culturais (Claude LÉVI-STRAUSS). 
Centrando-nos mais em um âmbito educativo, a origem deste conceito está ligado a formação profissional. Os apoios teóricos para sua justificação lhe vieram dados pela psicologia condutivista e de determinados modelos econômicos, especialmente da teoria do capital humano.

Fez sua aparição na década de 70 nos Estados unidos ligado ao movimento da "eficiência social", que por sua vez vinha sendo definido desdas primeiras décadas do século XX (Terry HVIAND, 1993). Este movimento teve John Franklin BOBBITT (1918/2004) como seu principal desenhador, sobre a base de aplicar ao sistema educativo o conhecimento organizacional. A gestão científica da conduta pela qual também apostavam empresas, se via também muitas possibilidades de aplicação no sistema educativo. 

Da mesma forma, um conceito que surge muito vinculado a teoria do capital humano que desenvolve Gary BECKER (1983) na década dos 70. Desde este modelo a educação passa a educação passa a contemplar-se como um conjunto de invenções que realizam as pessoas  com o fim de incrementar sua eficiência produtiva e seus rendimentos.

A noção de capital sobrepuja a ideia de um um estoque imaterial que pode ser acumulado por cada pessoa a título de individual para, seguidamente, poder intercambiar-se no mercado laboral pelo capital econômico. A teoria do capital humano contempla o caráter coletivo do processo de acumulação de conhecimento, convertendo cada indivíduo em um ser que constantemente calcula suas possíveis rendas futuras e, em consequência, toma decisões de trabalhar e de continuar formando-se. a invenção da educação aumentaria  a produtividade e , e por tanto, sua renda futura. Deste modo, se estabelece uma relação causal entre educação, produtividade e rendimentos econômicos. 

Esta classe de filosofias eficientístas onde conseguiram penetrar melhor foi na formação profissional




  



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