quinta-feira, 3 de setembro de 2020

O Ensino de Sociologia na Escola Secundária Brasileira

 Resumo de leitura do texto:

O Ensino de Sociologia na Escola Secundária Brasileira

De Florestan Fernandes

 Anais do I

Congresso Brasileiro de Sociologia. São Paulo, 1954. Disponível em:

http://www.sbsociologia.com.br/portal/index.php?option=com_docman&task=doc_do wnload&gid=1693&Itemid=170

Áudio da leitura do livro



O texto começa com o autor elencando as razões pelas quais é defensável o ensino de sociologia no ensino médio.



sábado, 11 de julho de 2020

Clifford Geertz. A Interpretação das Culturas - Capítulo 9: “Um jogo absorvente: Notas sobre a briga de galos balinesa”)

Data da leitura: 11 de julho de 2020

Pagina 185
  • Chegada a Bali -Em 1958 ele e a esposa chegam a uma pequena aldeia afastada de Bali, com cerca de 500 habitantes
  • Há certo estranhamento, as pessoas os tratam como se eles não existissem
  • Se quase ninguém os complementavam, ninguém os diziam coisas desagradáveis
Página 186
  • Minha mulher e eu ainda estávamos no estágio do sopro de vento, um estágio muito frustrante e enervante, em que se começa até a duvidar se se é verdadeiramente real, quando, dez dias ou pouco mais após a nossa chegada, foi organizada uma briga de galos muito disputada na praça pública, para angariar dinheiro para | uma nova escola.
  • Sobre a proibição da briga de galos - Ora, a não ser em ocasiões muito especiais, as brigas de galos são ilegais em Bali desde que foi proclamada a república (como o eram sob os holandeses, por motivos não muito bem explicados), em função das j pretensões ao puritanismo que o nacionalismo radical tende a trazer consigo. A elite, que não é tão puritana,, preocupa-se com o camponês pobre, ignorante, que aposta todo o seu dinheiro, com o que o estrangeiro i poderá pensar, com o desperdício de tempo que poderia ser melhor aplicado na construção do país
  • Os policiais de origem javanesa se sentiam obrigados a reprimir - Como acontecia durante a Lei Seca ou hoje com a maconha, de tempos em tempos a polícia (que, pelo menos em 1958, não era composta de balineses, mas de javaneses) sentia-se obrigada a fazer uma incursão, confiscar galos e  esporões, multar pessoas e até mesmo expor algumas delas ao sol tropical durante um dia
  • objetiva que jamais é aprendida, embora ocasionalmente, muito ocasionalmente, o objeto da lição morra. Como resultado disso, as rinhas são levadas a efeito nos cantos isolados de uma aldeia... Nesse caso, porém, talvez porque estivessem angariando dinheiro para uma escola que o governo  tinha condições de dar-lhes, ou talvez porque as incursões policiais tivessem diminuído recentemente, pois necessário suborno havia sido pago segundo deduzi de discussões subsequentes, os aldeões acharam que poderiam ocupar a praça central e atrair uma multidão maior e mais entusiasta sem chamar a atenção da lei
  • Eles estavam enganados. No meio da terceira rinha, com centenas de pessoas em volta, inclusive eu e minha mulher, ainda transparentes, um superorganismo, no sentido literal da palavra, um caminhão cheio de policiais armados de metralhadoras, surgiu como bloco único em torno da rinha. Por entre os gritos estridentes de "polícia! polícia!"
  • As pessoas corriam pela estrada, pulavam muros, escondiam-se sob plataformas, enroscavam-se por trás de biombos de vime, subiam nos coqueiros. Os galos, munidos de esporões de aço afiados o bastante para arrancar um dedo ou fazer um buraco num pé, espalharam-se ao redor, selvagemente. A poeira e  pânico eram tremendos.
  • Seguindo o princípio antropológico estabelecido. "Quando em Roma...", minha mulher e eu decidimos alguns minutos mais tarde que os demais, que o que tínhamos a fazer era correr também. Corremos pelai principal da aldeia, em direção ao Norte
  • Há uma perseguição, procuram o chefe da aldeia, a política cobra alta multa e interroga sobre a presença de estrangeiros, é feita uma defesa apaixonada deles, dizendo que eles tinham todo o direito de estar ali, no dia seguinte tudo muda quanto ao reconhecimento deste casal de antropólogos 
Página 188
  •  Levou-me a uma aceitação súbita e total, não-habitual, numa sociedade extremamente avessa à penetração de estrangeiros. Deu-me a oportunidade de aprender, de imediato, um aspecto introspectivo da "mentalidade camponesa", que os antropólogos que não tiveram a sorte de fugir como eu, juntamente com o objeto de suas pesquisas, das autoridades armadas, normalmente não conseguem. E, o que é mais importante, pois todas as outras coisas poderiam ter chegado a meu conhecimento de outra maneira, isso colocou-me em contato direto com uma combinação de explosão emocional, situação de guerra e drama filosófico de grande significação para a sociedade cuja natureza interna eu desejava entender. Por ocasião de minha partida, eu já havia despendido tanto tempo pesquisando as brigas de galos como a feitiçaria, a irrigação, as castas ou o casamento
Galos e homens

  • Vários aspectos da vida balinesa já foram estudados, no entanto, a briga de galo tem o mesmo efeito que teria um jogo de basquete pera os norte americanos
  • os galos brigam ali, mas verdadeiramente são os homens que se defrontam
  • "Para quem quer que tenha permanecido algum tempo em Bali, a profunda identificação psicológica dos homens balineses com seus galos é incontestável. Aqui, o duplo sentido é deliberado. Ele funciona exatamente da mesma maneira em balinês como em nossa língua, com as mesmas piadas antigas, os mesmos trocadilhos forçados, as mesmas obscenidades. Bateson e Mead sugeriram até, levando em conta a concepção balinesa do corpo como um conjunto de partes separadas animadas, que os galos eram vistos como pênis separados, funcionáveis, órgãos genitais ambulantes, com vida própria".
Página 189

  • "Sabung, a palavra correspondente a galo (que aparece em inscrições tão antigas como 922 d.C.) é usada de forma metafísica com o significado de "herói", "guerreiro", "campeão", "homem de valor", "candidato político", "solteiro", "dandi", "Don Juan" ou "cara durão".
  •  "galo lutador engaiolado pela primeira vez". Os julgamentos na corte, as guerras, as reuniões políticas, as disputas de herança e os argumentos de rua são todos comparados a brigas de galos. Até a própria ilha é percebida como tendo o contorno de um galo pequeno, orgulhoso, ereto..."
  • A admiração de homens pelos galos - Mas a intimidade dos homens com seus galos é mais do que metafórica. Os homens balineses, ou grande maioria deles pelo menos, despendem um tempo enormes com seus favoritos, aparando-os, alimentando-os, discutindo sobre eles, experimentando-os uns contra os outros, ou apenas admirando-os, com um misto de admiração embevecida ou uma auto-absorção sonhadora
  • Os galos são bem alimentados, são mantidos numa gaiola
Página 190
  • Os galos e seu sacrifício para expiar a ambição dos demônios - A ligação dos galos e brigas de galos com tais Poderes, com os demônios animalescos que constantemente ameaçam invadir o pequeno espaço limpo no qual os balineses tão cuidadosamente construíram suas vidas, para devorar seus habitantes, é muito explícita. Uma briga de galos, qualquer briga de galos, é, em primeiro lugar, um sacrifício de sangue oferecido aos demônios, com os cânticos e oblações apropriadas, a fim de pacificar sua fome voraz, canibalesca
  • Nenhum festival de templo pode ser iniciado antes que um tal sacrifício seja feito. (Se ele é esquecido, alguém cairá inevitavelmente em transe e ordenará, com a voz de um espírito zangado, que o esquecimento seja imediatamente corrigido.) As respostas coletivas aos males naturais - doenças, fracasso de colheitas, erupções vulcânicas
  • O Dia do Silêncio" (Njepi), quando todos se sentam em silêncio e imóveis durante todo o dia, j a fim de evitar qualquer contato com um súbito influxo de demônios saídos do inferno, é precedido, no dia  anterior, por brigas de galos em grande escala (legais, neste caso) em praticamente todas as aldeias da ilha.
  • "A loucura tem, porém, algumas dimensões menos visíveis, pois, embora seja verdade que os galos são expressões simbólicas ou ampliações da personalidade do seu proprietário, o ego masculino narcisista em termos esopianos, eles também representam expressões — e bem mais imediatas — daquilo que os balineses vêem como a inversão direta, estética, moral e metafísica, da condição humana: a animalidade".
  •  Os balineses evitam se parecer com animais, pois eles comparar animais a demônios, por isso, eles evitam comportamentos parecidos com comportamentos animais. Não deixam crianças engatinharem por exemplo.
  • Ao identificar-se com seu galo, o homem balinês se está identificando não apenas com seu eu ideal, ou mesmo com seu pênis, mas também, e ao mesmo tempo, com aquilo que ele mais teme, odeia e, sendo a ambivalência o que é, o que mais o fascina — "Os Poderes das Trevas"
Página 191

  • Na briga de galos, o homem e a besta, o bem e o mal, o ego e o id, o poder criativo da masculinidade desperta e o poder destrutivo da animalidade desenfreada fundem-se num drama sangrento de ódio, crueldade, violência e morte
O Embate

  • Fala sobre a colocação dos esporões de metal chamados (tadjí)
Página 192
  • Durante esse intervalo, que dura cerca de dois minutos, o treinador do galo ferido trabalha freneticamente com ele, como um segundo lida com um boxeur atingido entre os assaltos, para deixá-lo em forma numa última e desesperada tentativa de vitória
  • Cercando todo esse melodrama — que a multidão compacta em torno da rinha segue quase em silêncio, movendo seus corpos numa simpatia cinestética segundo o movimento dos animais, animando seus campeões com gestos de mão, sem palavras, com movimentos dos ombros, volteando a cabeça, recuando em massa quando o galo com os esporões mortais tomba num dos lados da rinha (diz-se que os espetadores às vezes perdem os olhos e os dedos por ficarem tão atentos), balançando-se em frente novamente enquanto olham de um para o outro — existe um vasto conjunto de regras extraordinariamente elaboradas e detalhadas com precisão.
  • ,o árbitro (soja komong; djuru kembar) — o homem que lida com o coco — encarrega-se da aplicação dessas regras e sua autoridade é absoluta. Jamais vi o julgamento de um árbitro ser questionado sobre qualquer assunto
  • Essa duplicidade cruzada de um acontecimento que, tomado como fato da natureza, é de um furor incontido e, tomado como fato da cultura, é aperfeiçoado em sua forma, define a briga de galos como uma entidade sociológica. Uma briga de galos é o que Erving Goffman chamou de "reunião concentrada", procurando o nome de algo insuficientemente consistente para ser chamado de grupo e insuficientemente desestruturado para ser chamado de multidão — um conjunto de pessoas absorvidas num fluxo de atividade comum e se relacionando umas com as outras em termos desse fluxo.
  •  Num período clássico (isto é, anterior à invasão holandesa de 1908), quando não havia burocratas para incrementar a moralidade popular, a encenação de uma briga de galos era um assunto explicitamente societário. Levar um galo de briga para uma luta importante era, para um adulto masculino, um dever compulsório de cidadania; a taxação das brigas, que ocorriam geralmente nos dias de mercado, era uma das principais fontes de renda pública; o patrocínio da arte era uma responsabilidade estabelecida para os príncipes, e a rinha de galos, ou wantilan, ficava no centro da aldeia, próximo aos outros monumentos da civilidade balinesa — a casa do conselho, o templo de origem, o local de mercado, a torre de sinalização e a figueira-de-bengala.
página 194

As Vantagens e o Direito ao Par
  •  Os balineses nunca fazem algo de maneira simples quando podem fazê-lo de modo complicado, e as apostas nas brigas de galos não constituem exceção a essa regra geral.
  • Em primeiro lugar, há dois tipos de apostas, ou toh.n Há a aposta principal, no centro, entre os chefes (íoh ketengah), e há a multidão de apostas periféricas em torno da rinha, entre o espectadores (toh kesasí). 
  • A aposta feita no centro é oficial, também envolvida numa teia de regras, e é feita entre os dois proprietários dos galos, sendo o árbitro o depositante e testemunha pública.
Página 195