Dom Quixote e os Moinhos de Vento da América Latina
Texto de Aníbal Quijano
Resumo da leitura feito em 14 de Setembro de 2015
O texto começa ao dizer que o que denominamos hoje América Latina se constituiu juntamente como parte do atual poder dominante que tem ligação com a constituição da Europa Ocidental como centro mundial de de controle deste poder e a própria dependência da América latina e fundou o modo social de existência chamado MODERNIDADE.
O autor destaca que a América Latina foi o tempo inaugural deste novo modelo social, embora na própria América Latina nem todas as potencialidades deste novo momento histórico tenham se desenvolvido.
Página 9 e 10
Dom Quixote e os Moinhos de Vento da América Latina
O autor começa citando Junichiro Tanizaki, que diz que o rumo da história de seu país (o Japão) teve o rumo foi alterado pela superioridade militar do ocidente o que demonstra a hegemonia da Europa Ocidental que através da visão eurocêntrica e de seu característico olhar evolucionista, testemunhando assim a hegemonia mundial do eurocentrismo como modo de produção e de controle da subjetividade e, em especial, a do conhecimento.
O autor destaca que na própria Europa Ocidental há regiões atrasadas no que se refere a esta modernidade e por tal no 400° aniversário do livro Dom Quixote é uma oportunidade de falar desta herança.
Quijano diz que Dom Quixote que arremete contra os moinhos de vento como quem arremete contra o surgimento da modernidade, onde o novo é representado pelos moinhos e o velho representado pela ideologia senhorial cavalheiresca se encontram, onde o novo não acabou de nascer e o velho não acabou de morrer
"Na verdade, todo o livro (Dom Quixote) é atravessado por esse des/encontro: o novo senso comum que emergia com o novo padrão de poder produzido com a América, com seu pragmatismo mercantil e seu respeito pelo “poderoso Cavaleiro Dom Dinheiro” (Quevedo dixit), não é ainda hegemônico, nem está ainda consistentemente constituído, e no entanto já ocupa um lugar crescente na mentalidade da população. Isto é, já disputa a hegemonia com o sentido cavalheiresco, senhorial, da existência social [...]"
No texto ao falar desta relação entre moinhos de vento X modernidade e cavalaria/arcaico é impossível não observar sua relação com o futuro da Espanha.
Página 10
O autor destaca que os moinhos de ventos eram uma tecnologia vinda de Bagdá no oriente e a cavalaria era um elemento da Europa atrasado culturalmente, mas militarmente vitoriosa do mediterrâneo como um grande centro mercantil que se reconstrói sobre os escombros da derrota da cultura muçulmana-judaica.
Este regime senhorial que pela contrarreforma e pela inquisição não tarda em expulsar os mouros e judeus faz a primeira limpeza étnica do período colonial/moderno e a coroa faz que em todas as populações se produza uma identidade comum, processo que ainda não está terminado hoje
" Depois da América, em um tempo de rápida expansão do capitalismo, quando já uma parte crescente da nova sociedade peninsular está imersa no novo padrão de poder, tal senhorio já não podia evitar ter, ele mesmo, os pés no solo mercantilista, quando sua cabeça ainda habitava o arcaico, embora em seu imaginário não menos caudaloso, céu de sua “cavalaria”.
Sem esse des/encontro, que confluía com os desastrosos efeitos da expulsão de mouros e judeus sobre a produção material e cultural, não se poderia explicar por que, nada menos do que com os ingentes benefícios comerciais obtidos com os minerais e vegetais preciosos produzidos na América com o trabalho não pago de “índios” servos e de “negros” escravos, a futura Espanha estava ingressando, sob todas as aparências contrárias, em um prolongado curso histórico, que a levou do centro do maior poder imperial até o duradouro atraso de uma periferia, no novo sistema-mundo colonial/ moderno."
Página 11
O autor compara este misto entre mundo cavalheiresco e modernidade como um cavalo arcaico já muito velho para cavalgar, que por sua vez, já incapaz de se converter numa burguesia plena e coerente e converter o diverso em nacional, assim como puderam fazer seus rivais e sucessores do centro norte da Europa.
Foi em cima das riquezas da América que a coroa e os habsburgos, donos das colossais riquezas das Américas extraída do trabalho gratuito dos negros escravos e dos índios servos sabendo que com o controle destas riquezas poderiam expulsar os judeus e mouros e ainda despejar sua violência para impor-se sobre outras identidades (catalães, bascos, andaluzes, galegos, navarros, valencianos) "O conhecido resultado foi, de um lado, a destruição da produção interna e do mercado interno nela fundado, e do outro, o secular retrocesso e estancamento dos processos de democratização e de ilustração que a modernidade/colonial abria e que produziram, precisamente, Dom Quixote".
Página 12
O que que empobreceu o futuro da Espanha foi exatamente o que permitiu o enriquecimento do centro-norte da Europa:
O que empobreceu e assenhoreou a futura Espanha, e a tornou ainda sede central do obscurantismo cultural e político no Ocidente pelos quatro séculos seguintes, foi precisamente o que permitiu o enriquecimento e a secularização do centro-norte da Europa Ocidental emergente, e mais tarde favoreceu o desenvolvimento do padrão de conflito que levou à democratização dessas regiões e países do centro-norte da Europa Ocidental.
Página 13
Com o tempo finalmente sobre a Espanha as regras do capitalismo se impõe, no entanto, ainda hoje "os remanescentes do “assenhoreamento” em sua existência social não terminaram de extinguir-se. E o conflito com as “autonomias” atuais, assim como o terrorismo do ETA em busca de independência nacional dão conta de que esse labirinto ainda não terminou de ser destruído, não obstante todas as mudanças. Ninguém melhor que Cervantes, e, portanto, Cide Hamete Benengeli, percebeu esse des/encontro histórico com tanta lucidez e perspicuidade".
Nós latino-americanos podemos aprender com o texto de Cervantes e a formação de um processo de colonialidade do poder:
" Esta é também precisamente a questão com a história do espaço/tempo específico que hoje chamamos América Latina. Por sua constituição históricoestruturalmente dependente dentro do atual padrão de poder, esteve todo esse tempo limitada a ser o espaço privilegiado de exercício da colonialidade do poder. E visto que nesse padrão de poder o modo hegemônico de produção e de controle de conhecimento é o eurocentrismo, encontraremos nessa história amálgamas, contradições e des/encontros análogos aos que Cide Hamete Benengeli havia conseguido perceber em seu próprio espaço/tempo".
Página 14
A perspectiva eurocêntrica da mesma forma que a cavalaria distorcendo a nossa realidade como América Latina :
"Consequentemente, nossos problemas também não podem ser percebidos senão desse modo distorcido, nem confrontados e resolvidos salvo também parcial e distorcidamente. Dessa maneira, a colonialidade do poder faz da América Latina um cenário de des/encontros entre nossa experiência, nosso conhecimento e nossa memória histórica".
Assim não é difícil compreender a forma que nossa história não teve um desenvolvimento coerente:
"Não é surpreendente, por isso, que nossa história não tenha podido ter um movimento autônomo e coerente, e mais exatamente tenha se configurado como um longo e tortuoso labirinto em que nossos problemas não resolvidos nos habitam como fantasmas históricos.".
O texto fala da necessidade essencial de nos desfazermos deste fantasma que é a colonialidade que distorce nossa visão e o compara com o fantasma de Elsinor de Hamilet
"Não se convocam, pois, impunemente, os fantasmas que a história produziu. Os da América Latina já deram muitas mostras de sua capacidade de conflito e de violência, precisamente porque foram produto de violentas crises e de sísmicas mutações históricas cujas seqüelas de problemas não pudemos ainda resolver. Esses fantasmas são aqueles que habitam nossa existência social, assediam nossa memória, inquietam cada projeto histórico, irrompem com freqüência em nossa vida, deixam mortos, feridos e contundidos, mas as mutações históricas que lhes dariam finalmente descanso não estiveram até hoje a nosso alcance".
O autor destaca que não só a América Latina não se deslogou deste fantasma histórico do colonialismo, como também corre o risco de desta forma não a não chegar ao novo mundo que vai se configurando na crise atual mais profunda e global de todo o período da colonial/modernidade.
" Para lidar com tais fantasmas e conseguir, talvez, que nos iluminem antes de desvanecer, é indispensável liberar nossa retina histórica da prisão eurocêntrica e reconhecer nossa experiência histórica. É bom, pois, é necessário que Dom Quixote cavalgue de novo para desfazer agravos, que nos ajude a desfazer o agravo de partida de toda a nossa história: a armadilha epistêmica do eurocentrismo que há quinhentos anos deixa na sombra o grande agravo da colonialidade do poder e nos faz ver somente gigantes, enquanto os dominadores podem ter o controle e o uso exclusivos de nossos moinhos de vento".
Página 15 e 16
O autor destaca que os moinhos de ventos eram uma tecnologia vinda de Bagdá no oriente e a cavalaria era um elemento da Europa atrasado culturalmente, mas militarmente vitoriosa do mediterrâneo como um grande centro mercantil que se reconstrói sobre os escombros da derrota da cultura muçulmana-judaica.
Este regime senhorial que pela contrarreforma e pela inquisição não tarda em expulsar os mouros e judeus faz a primeira limpeza étnica do período colonial/moderno e a coroa faz que em todas as populações se produza uma identidade comum, processo que ainda não está terminado hoje
" Depois da América, em um tempo de rápida expansão do capitalismo, quando já uma parte crescente da nova sociedade peninsular está imersa no novo padrão de poder, tal senhorio já não podia evitar ter, ele mesmo, os pés no solo mercantilista, quando sua cabeça ainda habitava o arcaico, embora em seu imaginário não menos caudaloso, céu de sua “cavalaria”.
Sem esse des/encontro, que confluía com os desastrosos efeitos da expulsão de mouros e judeus sobre a produção material e cultural, não se poderia explicar por que, nada menos do que com os ingentes benefícios comerciais obtidos com os minerais e vegetais preciosos produzidos na América com o trabalho não pago de “índios” servos e de “negros” escravos, a futura Espanha estava ingressando, sob todas as aparências contrárias, em um prolongado curso histórico, que a levou do centro do maior poder imperial até o duradouro atraso de uma periferia, no novo sistema-mundo colonial/ moderno."
Página 11
O autor compara este misto entre mundo cavalheiresco e modernidade como um cavalo arcaico já muito velho para cavalgar, que por sua vez, já incapaz de se converter numa burguesia plena e coerente e converter o diverso em nacional, assim como puderam fazer seus rivais e sucessores do centro norte da Europa.
Foi em cima das riquezas da América que a coroa e os habsburgos, donos das colossais riquezas das Américas extraída do trabalho gratuito dos negros escravos e dos índios servos sabendo que com o controle destas riquezas poderiam expulsar os judeus e mouros e ainda despejar sua violência para impor-se sobre outras identidades (catalães, bascos, andaluzes, galegos, navarros, valencianos) "O conhecido resultado foi, de um lado, a destruição da produção interna e do mercado interno nela fundado, e do outro, o secular retrocesso e estancamento dos processos de democratização e de ilustração que a modernidade/colonial abria e que produziram, precisamente, Dom Quixote".
Página 12
O que que empobreceu o futuro da Espanha foi exatamente o que permitiu o enriquecimento do centro-norte da Europa:
O que empobreceu e assenhoreou a futura Espanha, e a tornou ainda sede central do obscurantismo cultural e político no Ocidente pelos quatro séculos seguintes, foi precisamente o que permitiu o enriquecimento e a secularização do centro-norte da Europa Ocidental emergente, e mais tarde favoreceu o desenvolvimento do padrão de conflito que levou à democratização dessas regiões e países do centro-norte da Europa Ocidental.
Página 13
Com o tempo finalmente sobre a Espanha as regras do capitalismo se impõe, no entanto, ainda hoje "os remanescentes do “assenhoreamento” em sua existência social não terminaram de extinguir-se. E o conflito com as “autonomias” atuais, assim como o terrorismo do ETA em busca de independência nacional dão conta de que esse labirinto ainda não terminou de ser destruído, não obstante todas as mudanças. Ninguém melhor que Cervantes, e, portanto, Cide Hamete Benengeli, percebeu esse des/encontro histórico com tanta lucidez e perspicuidade".
Nós latino-americanos podemos aprender com o texto de Cervantes e a formação de um processo de colonialidade do poder:
" Esta é também precisamente a questão com a história do espaço/tempo específico que hoje chamamos América Latina. Por sua constituição históricoestruturalmente dependente dentro do atual padrão de poder, esteve todo esse tempo limitada a ser o espaço privilegiado de exercício da colonialidade do poder. E visto que nesse padrão de poder o modo hegemônico de produção e de controle de conhecimento é o eurocentrismo, encontraremos nessa história amálgamas, contradições e des/encontros análogos aos que Cide Hamete Benengeli havia conseguido perceber em seu próprio espaço/tempo".
Página 14
A perspectiva eurocêntrica da mesma forma que a cavalaria distorcendo a nossa realidade como América Latina :
"Consequentemente, nossos problemas também não podem ser percebidos senão desse modo distorcido, nem confrontados e resolvidos salvo também parcial e distorcidamente. Dessa maneira, a colonialidade do poder faz da América Latina um cenário de des/encontros entre nossa experiência, nosso conhecimento e nossa memória histórica".
Assim não é difícil compreender a forma que nossa história não teve um desenvolvimento coerente:
"Não é surpreendente, por isso, que nossa história não tenha podido ter um movimento autônomo e coerente, e mais exatamente tenha se configurado como um longo e tortuoso labirinto em que nossos problemas não resolvidos nos habitam como fantasmas históricos.".
O texto fala da necessidade essencial de nos desfazermos deste fantasma que é a colonialidade que distorce nossa visão e o compara com o fantasma de Elsinor de Hamilet
"Não se convocam, pois, impunemente, os fantasmas que a história produziu. Os da América Latina já deram muitas mostras de sua capacidade de conflito e de violência, precisamente porque foram produto de violentas crises e de sísmicas mutações históricas cujas seqüelas de problemas não pudemos ainda resolver. Esses fantasmas são aqueles que habitam nossa existência social, assediam nossa memória, inquietam cada projeto histórico, irrompem com freqüência em nossa vida, deixam mortos, feridos e contundidos, mas as mutações históricas que lhes dariam finalmente descanso não estiveram até hoje a nosso alcance".
O autor destaca que não só a América Latina não se deslogou deste fantasma histórico do colonialismo, como também corre o risco de desta forma não a não chegar ao novo mundo que vai se configurando na crise atual mais profunda e global de todo o período da colonial/modernidade.
" Para lidar com tais fantasmas e conseguir, talvez, que nos iluminem antes de desvanecer, é indispensável liberar nossa retina histórica da prisão eurocêntrica e reconhecer nossa experiência histórica. É bom, pois, é necessário que Dom Quixote cavalgue de novo para desfazer agravos, que nos ajude a desfazer o agravo de partida de toda a nossa história: a armadilha epistêmica do eurocentrismo que há quinhentos anos deixa na sombra o grande agravo da colonialidade do poder e nos faz ver somente gigantes, enquanto os dominadores podem ter o controle e o uso exclusivos de nossos moinhos de vento".
Página 15 e 16
A produção histórica da América Latina e a destruição e redefinição do passado
A construção histórica da América Latina começa pela destruição de todo um mundo histórico e o autor destaca que está que está é a maior destruição sociocultural que ele conhece. Porém este processo é ainda um processo que poucas vezes é levado a cabo, exceto pelo atual movimento dos índios e dos afro-latino-americanos:
"Mas raras vezes, se alguma, pode ser encontrado como elemento ativo na formulação das perspectivas que concorrem ou confluem no debate latino-americano pela produção de nosso próprio sentido histórico. E suspeito que agora mesmo seria um inapreensível argumento, se não estivesse presente o atual movimento dos chamados “indígenas” e não estivesse começando a emergir o novo movimento “afro-latino-americano”.
O autor fala da importância de recordar que o colonialismo foi mais um processo que sofremos de desintegração do poder, quando mais da metade da civilização que vivia aqui, uma civilização avançada que tinha conhecimentos e era composta desde engenheiros, arquitetos até artistas e os sobreviventes não tiveram acesso a esta cultura, se quer tinham acesso a educação se transformando em camponeses iletrados. Toda imensa produção intelectual desta civilização não só ficou destruída, mas também ficou inacessível aos seus descendentes.
Página 16
Página 16
A produção de um novo padrão de poder.
Raça e dominação social global
Nesta parte do texto o autor começa demonstrar um novo padrão de poder que até então não tinha sido usado, que tem como base na ideia de raça, pois a partir de então o dominados passam a não serem somente o que são, isso é vitimas de um conflito de poder, mas inferiores em sua natureza material em sua capacidade de produção histórico-cultural.
O autor chama a atenção que a vasta pluralidade de identidades dos que habitavam o continente, maias, astecas e incas foi destruída e estes passam a se enxergar com uma identidade imposta de índios e com o olhar do dominador, e de maneira não menos eficaz aos vindos do continente africano de negros:
" A vasta e plural história de identidades e memórias (seus nomes mais famosos, maias, astecas, incas, são conhecidos por todos) do mundo conquistado foi deliberadamente destruída e sobre toda a população sobrevivente foi imposta uma única identidade, racial, colonial e derrogatória, “índios”. Assim, além da destruição de seu mundo histórico-cultural prévio, foi imposta a esses povos a idéia de raça e uma identidade racial, como emblema de seu novo lugar no universo do poder. E pior, durante quinhentos anos lhes foi ensinado a olhar-se com os olhos do dominador [...]De modo muito diferente, mas não menos eficaz e perdurável, a destruição histórico-cultural e a produção de identidades racializadas teve também entre suas vítimas os habitantes seqüestrados e traídos, do que hoje chamamos África, como escravos e em seguida racializados como “negros”. Eles provinham também de complexas e sofisticadas experiências de poder e de civilização (ashantis, bacongos, congos, iorubas, zulus etc.)."
Página 17
O autor fala sobre os negros e diz que desde o tempo dos romanos a Europa já tinha contato com a cor negra
"Os “negros”, como eram chamados os futuros “africanos”, eram uma “cor” conhecida pelos “europeus” desde milhares de anos antes, desde os romanos, sem que a idéia de raça estivesse em jogo. Os escravos “negros” não serão embutidos nessa idéia de raça senão muito mais tarde na América colonial, sobretudo desde as guerras civis entre os encomenderos e as forças da Coroa, em meados do século XVI. Mas a “cor” como signo emblemático de raça não será imposta sobre eles senão desde bem avançado o século XVIII e na área colonial britânico-americana".
Aqui o autor fala sobre a experiência norte americana, fala do extermínio de índios e de expansão de territórios que é um dos exemplos deste colonialismo e mais tarde liga a esta construção social a relação de poder dos homens em relação as mulheres e de um padrão de poder relacionando brancos, índios, negros e mestiços.
Este modelo surge na relação Europa e América e se expande:
"Dessa maneira, o primeiro sistema de classificação social básica e universal dos indivíduos da espécie fazia sua entrada na história humana. Nos termos do jargão atual, a primeira classificação social global da história. Produzida na América, foi imposta ao conjunto da população mundial no mesmo curso da expansão do colonialismo europeu sobre o resto do mundo. A partir daí, a ideia de raça, o produto mental original e específico da conquista e colonização da América, foi imposta como o critério e o mecanismo social fundamental de classificação social básica e universal de todos os membros de nossa espécie".
Página 18
O autor destaca que o colonialismo é algo muito antigo, mas só com a colonização da América toma os contornos de raça como construto mental:
"A classificação racial, visto que se fundava em um produto mental nu, sem nada em comum com nada no universo material, não seria sequer imaginável fora da violência da dominação colonial. O colonialismo é uma experiência muito antiga. No entanto, somente com a conquista e a colonização ibero-cristã das sociedades e populações da América, na transposição do século XV ao XVI, foi produzido o construto mental de “raça”.
Ele destaca a correlação entre a vitória militar dos ibéricos contra judeus e muçulmanos na construção deste novo padrão de colonialismo:
" Isso dá conta de que não se tratava de qualquer colonialismo, mas de um muito particular e específico: ocorria no contexto da vitória militar, política e religioso-cultural dos cristãos da contra-reforma sobre os muçulmanos e judeus do sul da Ibéria e da Europa. E foi esse contexto que produziu a idéia de “raça”.
" De fato, ao mesmo tempo em que se conquistava e colonizava a América, a Coroa de Castela e de Aragão, já o núcleo do futuro estado central da futura Espanha, impunha aos muçulmanos e judeus da península ibérica a exigência de um “certificado de limpeza de sangue” para serem admitidos como “cristãos” e serem autorizados a habitar na península ou viajar à América. Tal “certificado” –
além de ser testemunho da primeira “limpeza étnica” do período da colonial/modernidade – pode ser considerado como o mais imediato antecedente da idéia de raça, já que implica a ideologia de que as idéias religiosas, ou mais geralmente a cultura, são transmitidas pelo “sangue”
além de ser testemunho da primeira “limpeza étnica” do período da colonial/modernidade – pode ser considerado como o mais imediato antecedente da idéia de raça, já que implica a ideologia de que as idéias religiosas, ou mais geralmente a cultura, são transmitidas pelo “sangue”
Página 19
O autor fala do capitalismo e sua expansão e da relação que ele passa a ter com a ideia de raça, então aqui o colonialismo já transformado numa perceptiva racial faz que aqueles que são negros e indignais tenham um lugar inferior
" E, naturalmente, em especial desde meados do século XVIII, entre os “mestiços” era precisamente a “cor”, o matiz da “cor”, o que definia o lugar de cada indivíduo ou cada grupo na divisão social
do trabalho".
do trabalho".
Colonialidade e globalidade no novo padrão de poder
A categoria raça se apresenta como critério universal de classificação social, ninguém em nenhum lugar do mundo pode estar fora deste padrão:
"Visto que a categoria raça se apresentava como o critério universal e básico de classificação social da população, e em torno dela se redefiniam as formas prévias de dominação, em especial entre sexos, “etnicidades”, “nacionalidades” e “culturas”, esse sistema de classificação social afetava, por definição, todos e cada um dos membros da espécie" [...]"Emergia, assim, o primeiro sistema global de dominação social historicamente conhecido: ninguém, em nenhum lugar do mundo, poderia estar fora dele" .
Página 20
Outro ponto é a expansão da divisão social do trabalho e do sistema de produção de mercadorias que se expande mundialmenteEmergia, pois, também o primeiro sistema global de exploração da história: o capitalismo mundial.
Eurocentramento do novo padrão de poder:
capital e modernidade
capital e modernidade
O autor fala sobre como o trabalho assalariado não pago da América juntamente com a introdução de novas tecnologias, inclusive vindas da África que permitiu a expansão europeia do capital, inclusive possibilitando que em seus países ou nas metrópoles houvesse trabalho assalariado
"[...] foi exclusivamente o controle colonial da América e do trabalho gratuito de “negros” e de “índios”, produzindo minerais e vegetais preciosos, que permitiu aos dominantes entre os colonizadores não só começar a ter uma posição importante no mercado mundial, mas sobretudo a concentração de ingentes benefícios comerciais, e junto com eles também concentrar em seus próprios países o assalariamento ou mercantilização da força de trabalho local" [...]Tudo isso implicou a rápida expansão da acumulação capitalista nessas regiões, e inclusive permitiu aproveitar as inovações tecnológicas produzidas pelos escravos “negros” das Antilhas para desenvolver a “revolução industrial” no Norte da futura Europa Ocidental11. Somente sobre essa base a emergente Europa Ocidental poderá depois partir para a colonização do resto do mundo e o domínio
do mercado mundial".
do mercado mundial".
Página 21
Quijano diz que sem a experiência da América seria impossível o eurocentrismo e a expansão desta expansão europeia, no entanto não é isso que se tenta passar, inclusive a visão da América como a terra sem males, uma terra de utopia ao contrário do que se pode pensar pode ter influenciado na construção de uma Europa que via a experiência da América pré-colonial quanto a igualdade social:
" [...] sem a América, sem contato e sem conhecimento de formas de existência social fundadas na igualdade social, a reciprocidade, a comunidade, a solidariedade social, entre algumas sociedades indígenas pré-coloniais, em especial na área andina, não se poderiam explicar as utopias européias dos séculos XVI, XVII e XVIII, as quais, re-imaginando, magnificando e idealizando aquelas experiências indígenas, em contraste com as desigualdades do feudalismo no centro-norte da Europa, fundaram o imaginário de uma sociedade constituída em torno da igualdade social, da liberdade individual e da solidariedade social como projeto central da modernidade e como cifra e compêndio de sua específica racionalidade".
Página 22
A Europa se firma como o centro da colonialidade do Poder:
" Para a América e, em particular, para a atual América Latina, no contexto da colonialidade do poder, esse processo implicou que, à dominação colonial, à racialização, à re-identificação geocultural e à exploração do trabalho gratuito, fosse sobreposta a emergência da Europa Ocidental como o centro do controle do poder, como o centro de desenvolvimento do capital e da modernidade/
racionalidade, como a própria sede do modelo histórico avançado da civilização.
Todo um mundo privilegiado que se imaginava, se imagina ainda, autoproduzido e autoprojetado por seres da raça superior par excellence, por definição os únicos realmente dotados da capacidade de obter essas conquistas. Desse modo, daí em diante, a dependência histórico-estrutural da América Latina não seria mais somente uma marca da materialidade das relações sociais, mas sim, sobretudo, de suas novas relações subjetivas e intersubjetivas com a nova entidade/identidade chamada Europa Ocidental e a de seus descendentes e portadores onde quer que fossem e estivessem".
A Europa se firma como o centro da colonialidade do Poder:
" Para a América e, em particular, para a atual América Latina, no contexto da colonialidade do poder, esse processo implicou que, à dominação colonial, à racialização, à re-identificação geocultural e à exploração do trabalho gratuito, fosse sobreposta a emergência da Europa Ocidental como o centro do controle do poder, como o centro de desenvolvimento do capital e da modernidade/
racionalidade, como a própria sede do modelo histórico avançado da civilização.
Todo um mundo privilegiado que se imaginava, se imagina ainda, autoproduzido e autoprojetado por seres da raça superior par excellence, por definição os únicos realmente dotados da capacidade de obter essas conquistas. Desse modo, daí em diante, a dependência histórico-estrutural da América Latina não seria mais somente uma marca da materialidade das relações sociais, mas sim, sobretudo, de suas novas relações subjetivas e intersubjetivas com a nova entidade/identidade chamada Europa Ocidental e a de seus descendentes e portadores onde quer que fossem e estivessem".
Os fantasmas da América Latina
O autor fala que esta autora o leitor já deve ter percebido que o modelo da colonialidade do poder frustrou nossa tentativa de encontrarmos soluções para nossos problemas fundamentais e ele fala da tentativa a partir XIX que o caminho das independências e aí surge a proposta de integração bolivariana que pretendia lutar contra a influencia dos EUA, tanto por conta da anexação da metade do México, mas também pela influência norte-americana em Porto Rico, em Cuba e nas Filipinas.
Página 23
Aqui se destaca que por este processo colonial estar tão arraigado em nós, quando surge novas ideias que tentam desenraizar de nós este mal, acabamos por acreditar que estas ideias são meras utopias, não dando crédito as mesmas e estes fantasmas da colonialidade parecem ter se enraizado em nossa consciência:
"Por tudo isso, tais fantasmas nos habitam entrelaçados entre si inextricavelmente.E parecem ter-se tornado permanentes. Desse modo, terminaram por tornar-se familiares, na verdade íntimos, e são parte constitutiva de nossa experiência e de nossas imagens. Poder-se-ia dizer, por isso, que agora são virtualmente inerentes à materialidade e ao imaginário de nossa existência histórica. Nesse sentido, formam o específico nó histórico da América Latina".
Colonialidade, modernidade, identidade
Não é surpreendente que o tenhamos internalizado o colonialismo em nós, uma vez que nossos colonizadores eram europeus e mesmo após com as independências, eram os brancos identificados com o oriente (Europa).
O autor destaca a importância de dar voz aos construtores de racionalidade índios, negros e mestiços:
"Em outros termos, a colonialidade do poder implicava então, e ainda hoje no fundamental, a invisibilidade sociológica dos não-europeus, “índios”, “negros” e seus “mestiços”, ou seja, da esmagadora maioria da população da América e sobretudo da América Latina, com relação à produção de subjetividade, de memória histórica, de imaginário, de conhecimento “racional”. Logo, de identidade".
Página 24
O texto fala das revoltas no vice-reinado do Peru por Tupac Amaru em 1780, da inicial triunfante revolução haitiana de 1808 os latino americanos não europeus foram mais invisibilidades no mundo dos dominantes da colonialidade do poder.
Por outro lado "De fato, os invisibilizados eram a esmagadora maioria da população da América Latina tomada em seu conjunto, e seu universo subjetivo, seus modos de relação com o universo, densos e ativos demais para serem simplesmente ignorados".
Também destaca que a promiscuidade dos católicos produziu um grande número de mestiços o que fez que, exceto nos extremos do poder houvesse uma relação intersubjetiva do poder:
"intersubjetivo considerado igualmente “mestiço”, e conseqüentemente ambíguo e indeciso, exceto, sem dúvida, nos extremos de ambas as partes do poder".
A partir de então a identidade latino-americana passa ser um terreno de conflito e um processo pedregoso entre europeus e não europeus e este processo:
Em primeiro lugar aumento do número de mestiços e pela própria ideia de igualdade racial bastante que é resultado da luta antirracista
Em segundo lugar a questão do discurso dominante moderno europeu/ocidental após a segunda guerra mundial este discurso é questionado quanto ao pré-europeu ou o pré moderno.
Página 25
"Em terceiro lugar, o que resulta da resistência das vítimas da colonialidade do poder, que não esteve ausente durante estes cinco séculos. Durante a primeira modernidade, sob o domínio ibérico, os primeiros intelectuais “mestiços” (no extenso Vice-reino do Peru, a maior parte da América do Sul atual, poucos desconheceriam os nomes mais célebres, Garcilaso de la Vega, o Inca, Huaman Poma de Ayala, Santa Cruz Pachacuti Salcamayhua, Blas Valera) iniciaram a defesa do legado aborígine".
Em quarto lugar o autor fala de uma busca de uma latinalização influenciada pela França e pelas ideias de Rodó especialmente frente ao crescimento da influência norte americana
"Enfim, os recentes movimentos político-culturais dos “indígenas” e dos “afro-latino-americanos” puseram definitivamente em questão a versão européia da modernidade/racionalidade e propõem sua própria racionalidade como alternativa. Negam a legitimidade teórica e social da classificação “racial” e “étnica”, propondo de novo a idéia de igualdade social. Negam a pertinência e a legitimidade do Estado-Nação fundado na colonialidade do poder. Enfim, embora menos clara e explicitamente, propõem a afirmação e reprodução da reciprocidade e de sua ética de solidariedade social, como opção alternativa às tendências predatórias do capitalismo atual".
" É pertinente assinalar, contra todo esse pano de fundo histórico e atual, que a questão da identidade na América Latina é, mais do que nunca, um projeto histórico, aberto e heterogêneo, não só, e talvez não tanto, uma lealdade com a memória e com o passado [...] Nessa perspectiva e nesse sentido, a produção da identidade latino-americana implica, desde o início, uma trajetória de inevitável destruição da colonialidade do poder, uma maneira muito específica de descolonização e de liberação: a des/colonialidade do poder.
O texto fala das revoltas no vice-reinado do Peru por Tupac Amaru em 1780, da inicial triunfante revolução haitiana de 1808 os latino americanos não europeus foram mais invisibilidades no mundo dos dominantes da colonialidade do poder.
Por outro lado "De fato, os invisibilizados eram a esmagadora maioria da população da América Latina tomada em seu conjunto, e seu universo subjetivo, seus modos de relação com o universo, densos e ativos demais para serem simplesmente ignorados".
Também destaca que a promiscuidade dos católicos produziu um grande número de mestiços o que fez que, exceto nos extremos do poder houvesse uma relação intersubjetiva do poder:
"intersubjetivo considerado igualmente “mestiço”, e conseqüentemente ambíguo e indeciso, exceto, sem dúvida, nos extremos de ambas as partes do poder".
A partir de então a identidade latino-americana passa ser um terreno de conflito e um processo pedregoso entre europeus e não europeus e este processo:
Em primeiro lugar aumento do número de mestiços e pela própria ideia de igualdade racial bastante que é resultado da luta antirracista
Em segundo lugar a questão do discurso dominante moderno europeu/ocidental após a segunda guerra mundial este discurso é questionado quanto ao pré-europeu ou o pré moderno.
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"Em terceiro lugar, o que resulta da resistência das vítimas da colonialidade do poder, que não esteve ausente durante estes cinco séculos. Durante a primeira modernidade, sob o domínio ibérico, os primeiros intelectuais “mestiços” (no extenso Vice-reino do Peru, a maior parte da América do Sul atual, poucos desconheceriam os nomes mais célebres, Garcilaso de la Vega, o Inca, Huaman Poma de Ayala, Santa Cruz Pachacuti Salcamayhua, Blas Valera) iniciaram a defesa do legado aborígine".
Em quarto lugar o autor fala de uma busca de uma latinalização influenciada pela França e pelas ideias de Rodó especialmente frente ao crescimento da influência norte americana
"Enfim, os recentes movimentos político-culturais dos “indígenas” e dos “afro-latino-americanos” puseram definitivamente em questão a versão européia da modernidade/racionalidade e propõem sua própria racionalidade como alternativa. Negam a legitimidade teórica e social da classificação “racial” e “étnica”, propondo de novo a idéia de igualdade social. Negam a pertinência e a legitimidade do Estado-Nação fundado na colonialidade do poder. Enfim, embora menos clara e explicitamente, propõem a afirmação e reprodução da reciprocidade e de sua ética de solidariedade social, como opção alternativa às tendências predatórias do capitalismo atual".
" É pertinente assinalar, contra todo esse pano de fundo histórico e atual, que a questão da identidade na América Latina é, mais do que nunca, um projeto histórico, aberto e heterogêneo, não só, e talvez não tanto, uma lealdade com a memória e com o passado [...] Nessa perspectiva e nesse sentido, a produção da identidade latino-americana implica, desde o início, uma trajetória de inevitável destruição da colonialidade do poder, uma maneira muito específica de descolonização e de liberação: a des/colonialidade do poder.
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